Memorial Descritivo – Timeline

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AS VIAGENS E AS (TRANS)FORMAÇÕES DO EU

 Por Biagio M. Avena

 APRESENTAÇÃO

O presente Memorial descritivo consiste em um relato circunstanciado das atividades de pesquisa, ensino, extensão, gestão e internacionalização realizadas ao longo de minha vida profissional. Do mesmo modo, são também apresentadas perspectivas futuras relativas às atividades que estão em curso e outras que ainda serão executadas. Para além do propósito de atender às normas para obtenção da promoção para a classe de Professor Titular –EBTT no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia – IFBA, regulamentada pela Lei nº 12.772, de 2012, Portaria nº982/2013 e Portaria normativa nº10/2014, a elaboração deste texto possibilitou, como em um filme, rever as diversas etapas da minha vida pessoal e, sobretudo, profissional.

O texto aqui apresentado, de natureza autobiográfica, compõe-se de três partes que englobam aspectos essenciais de minha vida acadêmica e profissional: primeiro, reconhecendo, agradecendo e honrando minha ancestralidade masculina e feminina, trago o texto Piccola Italia, que descreve a trajetória de vida de meus pais e a minha; em seguida, sob o título “Atividades de ensino, pesquisa e extensão”, apresento a produção acadêmica que realizei, inicialmente como estudante, e, posteriormente, como docente, além da experiência profissional na atuação no campo do Turismo e no ensino de línguas estrangeiras modernas.

Nessa etapa, estou considerando o meu processo de inserção nas atividades de ensino no Ensino Básico, Técnico e Tecnológico, momento em que assumi o cargo de professor no Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia – CEFET-BA, hoje IFBA. Em seguida, aludo, no memorial, ao período de meu ingresso no Ensino Superior, no Curso de Bacharelado em Administração e no Curso Superior de Tecnologia em Eventos.

Descrevo, igualmente, a minha inserção como docente na Pós-Graduação stricto sensu no Doutorado Multi-Institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento – DMMDC (UFBA/IFBA/UNEB/UEFS/SENAI/LNCC) e no Mestrado Profissional em Turismo do Centro de Excelência em Turismo – CET, da Universidade de Brasília – UnB, experiência singular que tem me proporcionado uma ampliação do meu papel de formador de formadores para os campos das Viagens, do Turismo e do Acolhimento. Descrevo, igualmente, o meu desempenho em funções de gestão assumidas na instituição, abrangendo atividades nos cursos, bem como em cargos de gestão superior.

A partir do título “Perspectivas futuras”, expresso, também, as minhas aspirações em atividades futuras que serão desenvolvidas na minha trajetória acadêmica em curso. Assim, acredito que as partes que compõem esse trabalho não só retomam minha trajetória autobiográfica como também, a par do narrado, englobam os seguintes critérios: I – Atividades de ensino e orientação; II – Atividades de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação (PD&I); III – Atividades de extensão; IV – Participação em bancas de avaliação, seja de concurso público, de processo de seleção simplificada ou no âmbito acadêmico; V – Participação como editor/revisor de revistas, indexadas ou internas; VI – Participação como membro de comissões de caráter pedagógico;  VII – Participação como membro de comissão de elaboração de Planos de Cursos e de Projeto Pedagógico de novos cursos; VIII – Participação na organização de eventos acadêmicos e ter sido premiado em concursos e competições, como orientador de alunos; IX – Participação, como membro, em comissões ou grupos de trabalho de caráter provisório; X – Exercício de cargos de direção e de coordenação (CD, FCC, FG); XI – Aperfeiçoamento acadêmico e profissional; e XII – Representação em: conselho, câmaras, comitês de caráter permanente e/ou sindical.

Por fim, nas Considerações finais, retomo minha trajetória profissional e acadêmica, de forma a concluir que meus caminhos estão intrinsicamente imbricados na educação. Não apenas pelo exercício profissional, mas sim por acreditar na perspectiva de que Educação é também Acolhimento e Afetividade, é trilhar passos conjuntos rumo ao conhecimento de si, na constante troca e interação com o outro – o que possibilita, para ambos, o crescimento e a possibilidade de transformações positivas na realidade circunstancial.

  1. PICCOLA ITALIA: o início de uma trajetória

 As diversas experiências de viagem ao longo da minha vida pessoal e profissional, em especial a estada na cidade de Paris no período de abril de 2006 a agosto de 2007, durante a bolsa de estágio doutoral nas Universidades de Paris 8 e Paris 1, me permitiram vivenciar a transição das quatro estações ao longo desse tempo-espaço. Sobretudo, me possibilitaram efetuar um retorno para dentro de mim mesmo e ao conjunto de experiências que me constituem: uma experiência enquanto estudante de pós-graduação que me deu a oportunidade de enriquecer meus conhecimentos científicos e acadêmicos no exterior.

Igualmente, pude vivenciar uma experiência pessoal que me oportunizou aproveitar a cidade de Paris para realizar um sonho, um desejo que me acompanhava desde a idade de dez anos quando meus estudos da língua, da literatura e da civilização francesas iniciaram; foi também uma experiência de reflexão sobre as relações estabelecidas ao longo do tempo: familiares, de amizade e amorosas; uma experiência de vida global, de autoconhecimento, de experimentação, de sentimentos, de afetos. Uma experiência que considero ser de autoformação, de alteração, de transformação, que tem se intensificado nas últimas décadas e, sobretudo, nesses últimos anos.

Essas experiências não tiveram uma ordem pré-estabelecida.  Elas se desenrolaram simultaneamente e foram administradas à medida em que apareceram. Por exemplo, é somente no fim do ano de 2004, durante um encontro com Jacques Ardoino, professor emérito da Universidade de Paris 8, que percebi a minha total implicação no meu objeto de pesquisa, o Turismo e, mais especialmente, o Acolhimento Turístico e Hoteleiro. Foi naquele instante que tomei uma decisão: a história de vida de minha família e, particularmente, a minha, deveriam fazer parte dos meus estudos, considerando o reconhecimento, o agradecimento e a honra da experiência de vida dos meus pais e ancestrais que me conforma.

Naquela época, eu não sabia ainda como inseri-la nos meus estudos e pesquisa, mas, gradualmente, o texto foi tomando forma e progressivamente algumas leituras me autorizaram a utilizá-las como um cenário introdutório que apresenta uma história de imigração, de educação e de (trans)formação pelas viagens; experiências pessoais como viajante e guia; além de professor no campo das línguas estrangeiras, das viagens e do turismo, nos cursos técnicos, superiores de graduação e pós-graduação. Eis, então, como nasceu e se constituiu este texto Piccola Italia[1].

Uma história de vida…

Era o ano de 1957, o navio deixara o porto de Nápoles quinze dias antes e aproximava-se da costa brasileira; atravessara o Mar Mediterrâneo, havia parado em vários portos, superado as águas e as ondas do Oceano Atlântico para enfim chegar às bordas da costa brasileira.  Durante esta viagem, Annina, minha mãe, aos 29 anos, fazia uma retrospectiva de sua vida.

Primeira filha de cinco irmãos, nasceu após Giuseppe Angelo e Giovanni e antes de Francesco Antonio e Maria.  A família vivia no campo, nas montanhas da Calábria, no Sul da Itália, na pequena localidade da Ficarrola, no município de Papasidero, na Província de Cosenza. Durante o século XIX e, sobretudo naquela época, a família Oliva-Paolino se ocupava de atividades agropastoris: cultivo do trigo e de outros cereais, de legumes, verduras e frutas.  Ocupava-se, igualmente, de pequenos rebanhos de cabras, carneiros e algumas vacas leiteiras. Entretanto, mesmo com todas essas atividades, as crianças ainda tinham tempo para ir à escola.

A uma distância de quase duas horas de caminhada da sede do município, seus irmãos e ela se sentavam nas carteiras em uma turma que reunia alunos de idades e níveis diferentes para aprenderem as primeiras letras.  De origem camponesa e muito simples, meus avós, mesmo não tendo tido acesso à escolarização, procuraram sempre oportunizar o estudo das primeiras séries da escola primária aos filhos. Porém, todos, após voltarem da escola, desempenhavam cada qual a sua função nas atividades camponesas.  Era um período bastante difícil, o entre duas-guerras.

Em 1939, com o início da II Guerra Mundial, tudo se tornou ainda mais árduo.  O que a família produzia com muito esforço deveria ser dividido e cedida uma parte ao exército.  Os irmãos mais velhos, Giovanni e Giuseppe Angelo, foram convocados a se alistarem para participarem da Guerra – uma história de viagem forçada.  Durante um longo tempo, a família não recebeu notícias de onde se encontravam e, repetidas vezes, seus pais, irmãos e irmãs pensaram que eles poderiam ter sucumbido nas batalhas. Meu tio Angelo, o filho mais velho, foi considerado desaparecido durante muito tempo. Ele foi prisioneiro e ficou detido na Austrália, assim como o irmão Giovanni também ficou sem dar notícias.

Após o fim da guerra, a situação socioeconômica da Europa e, especialmente, daquela região da Itália, estava cada vez mais difícil.  Muitos já haviam emigrado nas últimas décadas do século XIX. Estas migrações se intensificaram no período entre as duas guerras e ainda mais no período posterior à II Guerra. O destino mais frequente eram as Américas.  Todos queriam “fazer a América” e ter uma vida economicamente mais tranquila.

Giovanni foi o primeiro dos filhos a emigrar, no ano de 1952, chamado por meu tio-avô, Giuseppe Angelo, que já havia anteriormente partido para o Brasil. Por sua vez, Francesco Antonio foi chamado por Giovanni, em 1954. Alguns anos antes, em fevereiro de 1950, minha mãe Annina casara-se com meu pai Luigi, irmão de Maria, a qual havia casado com Giuseppe Angelo, o irmão de Annina. Este, por sua vez, também convidou ao cunhado para que viesse às terras brasileiras.

No convés do navio, durante as duas semanas de viagem em direção ao Brasil, minha mãe teve tempo para refletir sobre os acontecimentos ocorridos até a sua partida: sua infância; sua juventude; sua vida adulta; todas as dificuldades enfrentadas; o sentimento de ter deixado a terra pátria para trás, seus pais, familiares e amigos.  Tudo foi muito difícil.  Mas, ao mesmo tempo, havia a sensação desafiadora de ver se aproximar uma nova etapa. Ela estava indo ao encontro de seu esposo para iniciar uma nova vida, em um país desconhecido.

Era um momento singular, um divisor de águas, que a travessia do Oceano Atlântico estava tornando favorável e possível.  Mesmo com medo, ela reconheceu, agradeceu e honrou seus pais e antepassados e seguiu o seu destino. Por sua vez, em terra, no cais do porto do Rio de Janeiro, meu pai, em uma manhã ensolarada de outubro, aguardava ansiosamente a chegada de minha mãe: quatro anos de espera, de saudades, de experiências novas no aprendizado de uma nova vida, em uma grande cidade, com uma língua desconhecida, hábitos e culturas diferentes.

No que concerne à minha família paterna, meu pai Luigi e minha tia Maria Avena foram criados por sua mãe, Rosina, e sua tia, pois meu avô Giuseppe Antonio havia emigrado para o Brasil durante a gestação do seu filho. Assim, meu pai cresceu pensando sempre em um dia fazer a travessia do oceano Atlântico para se juntar a seu pai. Em 1953, alguns anos após o seu casamento com a minha mãe, ele partiu ao encontro do pai para realizar esse sonho. Por isso, já há algum tempo vivendo Brasil, durante aquele momento de expectativa ao longo do cais, Luigi, à espera de Annina, também, reviu, como em um filme, a sua vida até antes da sua partida para o Brasil. Repensava na vontade que tinha de conhecer seu pai, de ter uma vida melhor e de poder vivê-la com sua esposa e seus futuros filhos.

Luigi, ao repassar sua vida no Brasil até aquele momento, percebeu que já havia vivenciado várias experiências. Iniciou no trabalho como funileiro, reparando panelas e utensílios de forma geral ao longo das ruas do Rio de Janeiro, antes de se estabelecer como comerciante em parceria com um primo. Foi com esta atividade que, pouco a pouco, construiu a vida de sua família com melhores condições daquelas que tinha na Itália, na primeira etapa da sua vida.

Assim como meus pais, muitos outros familiares e amigos haviam emigrado durante a primeira metade do século XX. Desse modo, tinham o hábito de se reunir frequentemente para almoços tipicamente italianos, com muita pasta asciuta[2], pão e vinho.  Divertiam-se igualmente tocando acordeão e dançando músicas típicas: tarantelas, mazurcas, etc. Nesses festins, meu pai e meus tios eram alguns desses músicos “sanfoneiros”.

Meus pais Luigi e Annina, um ano após o casamento, tiveram o seu primogênito, ainda na Itália.  Mas esta criança teve pouco tempo de vida.  Após o reencontro no Brasil, em 1958, durante a Copa do Mundo, Annina deu à luz, prematuramente, a um casal de gêmeos que também viveu somente alguns dias. Após essas três crianças que não sobreviveram, em outubro de 1959, nasceu Rosa Graziela, minha irmã mais velha, e em novembro de 1960, eu vim à luz.  Alguns anos mais tarde, em maio de 1965, nasceu Ana Claudia, minha irmã caçula.

Em 1964, antes do nascimento de Ana, a família se transferiu temporariamente para morar junto com tios, primos e amigos, em uma grande casa compartilhada, em função de um tratamento de saúde de meu pai. Mas a transferência temporária passou a ser definitiva após alguns meses.  E é esta pequena comunidade que se formou que hoje em dia chamo de Piccola Italia, pois foi a reprodução de um locus social que dava suporte e que conectava todos às suas origens e às saudades da pátria-mãe.

Foi na Piccola Italia que fomos criados, os três irmãos, envoltos pelos pais, tio-avô, tios e primos.  Eu gostava muito de estar com meu tio Giovanni, pois ele estava sempre lendo livros.  No seu quarto havia uma pequena estante onde eu gostava de passar algumas horas da tarde, folheando os livros que ainda não sabia ler.  O odor das folhas, o brilho e as cores das figuras me encantavam! Após ter sido alfabetizado, tive enfim acesso aos seus livros e me dediquei a eles com paixão durante muito tempo.

Gostava, especialmente, da coleção Tesouros da Juventude, na qual estabeleci contato com fábulas, histórias e estórias, personagens e períodos importantes das civilizações.  Eu pude ler cada volume com muito prazer.  Esse foi um dos meus primeiros lastros ao qual se reuniram as Enciclopédias Barsa e Delta Larousse, na biblioteca da escola e, em seguida, na aquisição efetuada por meus pais. Quando comecei a estudar geografia na Escola Municipal Afonso Taunay, gostava muito de reproduzir mapas do mundo inteiro e me alegrava com a ideia de me deslocar, de viajar sobre eles, sobretudo pelo mapa dos países Europeus.

Gostava particularmente da península itálica e imaginava que, quando visitasse aqueles países, estaria falando a língua materna dos seus habitantes, cujo dialeto nasci escutando e reproduzindo até o início do jardim de infância.  Muito provavelmente, essa necessidade, esse desejo, nasceu das histórias ouvidas e vivenciadas por meus pais e familiares em virtude das dificuldades de adaptação e do conhecimento insuficiente da língua portuguesa – situação que os fez passar por experiências delicadas.

Meus pais investiram tudo o que puderam na nossa formação.  Desde a 5ª série, eu havia optado por estudar a língua inglesa, mas acabei sendo designado para a turma de língua francesa.  Fiquei decepcionado em um primeiro momento, mas, ao iniciarem-se as aulas, o professor suscitou o meu interesse e tomei gosto pela língua. Foi assim que começou o aprendizado formal da minha primeira língua estrangeira.  Por ser filho de italianos, a minha segunda língua era o italiano, o calabrês na realidade.

Nos quatros anos seguintes, segui o estudo da língua francesa e sempre gostei.  Contudo, ao iniciar o Ensino Médio, não pude continuá-lo, pois esta língua não era ensinada na escola.  Iniciei, então, a estudar a língua inglesa.  No entanto, na mesma época, a concessão de uma bolsa de estudos pela Aliança Francesa me permitiu dar continuidade ao aprendizado da língua, da literatura e da civilização francesas.  Alguns anos mais tarde, principiei a estudar, também, a língua alemã.  Três anos depois, após ter estudado as línguas francesa, inglesa e alemã, adquiri os primeiros conhecimentos formais da minha segunda língua materna. Foi nesse momento que me dei conta de que realmente somente conhecia bem um dialeto e que a compreensão verdadeira da língua de Dante estava se construindo naquele momento.

Durante esse tempo, me interessavam igualmente a história, a geografia, os hábitos e costumes dos diferentes povos.  Nascia em mim, então, cada vez mais, o desejo de conhecer, de estudar, de viajar por esses países. O desejo de fazer um Grand-Tour, uma viagem cultural de reconhecimento e contato com a origem dessas línguas, literaturas e culturas. Dessa forma, pelo fato de conhecer diversas línguas, amigos me estimularam a seguir uma formação técnica de guia de turismo. Assim, após a ter completado no SENAC-RJ, tornei-me, em 1985, guia de turismo local da cidade do Rio de Janeiro, onde desenvolvi esta atividade até 1992, com pausas para realizar viagens ao exterior.

Ao mesmo tempo, a partir de 1986, a convite da Aliança Francesa, após um estágio, passei a atuar como professor de língua francesa. Esta atividade desempenhei em paralelo com a de guia de turismo, visto que a atividade de professor ocorria no período da baixa estação. Nesse tempo, no período de 1988 e 1989, passei onze meses entre Itália, França, Espanha e Tunísia. Foi então que aperfeiçoei meus conhecimentos das línguas estrangeiras, das suas respectivas culturas, e da profissão de guia de turismo internacional.  Um ano mais tarde, em 1990, passei nove meses na Alemanha, onde aprofundei os conhecimentos da língua e da cultura alemãs e tive uma experiência na área de alimentos e bebidas.

De 1990 a 1992, dei continuidade às minhas atividades de guia de turismo e de professor das línguas francesa e inglesa no Rio de Janeiro.  Em junho de 1992, tinha como objetivo ampliar ainda mais meus horizontes. Fiz, então, cursos na área de línguas estrangeiras modernas na Universidade de São Paulo – USP e acabei me transferindo para São Paulo. Durante três anos, ensinei na Aliança Francesa da capital paulista, na filial empresas e nas demais filiais, e atuei como professor de língua inglesa em cursos livres.

Em 1995, após ter feito uma viagem às origens do Brasil, mais especificamente à cidade de Porto Seguro, na Bahia, eu tomei a decisão de me transferir para essa cidade a fim de trabalhar tanto como guia de turismo quanto como professor de línguas estrangeiras para o turismo e a hotelaria.  Em seguida, durante dois anos, assumindo as funções de coordenador pedagógico e professor, implantei uma franquia de línguas estrangeiras, a Skill Aliança Inglesa.  Ao longo dessas atividades, durante um seminário sobre qualidade na educação, conheci a Unidade de Ensino Descentralizado de Eunápolis, do Centro Federal de Educação Tecnológica da Bahia – CEFET-BA.  Assim, em abril de 1997, passei a fazer parte do corpo de docentes temporários no ensino da língua francesa para o turismo e a hotelaria no curso técnico em turismo.  Em 1999, após ser aprovado em concurso público, tomei posse no corpo de professores efetivos dessa instituição.

Senti, então, a necessidade de aprofundar meus conhecimentos nos campos das viagens, do turismo e da educação. Dessa forma, me inscrevi, em 1998, no Curso de Especialização em Administração Hoteleira do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial – SENAC, em convênio com a Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC.  Em seguida, com o desejo de ampliar ainda mais os horizontes e realizar pesquisas nos campos da Educação e do Turismo, ingressei, em 1999, no Mestrado e, em 2004, no Doutorado em Educação da Universidade Federal da Bahia – UFBA.

Os estudos e as pesquisas efetuados por meio da formação do Mestrado conduziram à publicação, em 2006, do livro Turismo, Educação e Acolhimento: um novo olhar.  Por sua vez, a formação doutoral possibilitou a defesa da tese “Por uma Pedagogia da Viagem, do Turismo e do Acolhimento: significados e contribuições das Viagens à (trans)formação de Si”.  Este estudo gerou a publicação de alguns artigos científicos e de um primeiro livro, intitulado Viajando… Se (trans)formando, em 2015. A perspectiva é de publicar até 2020 os demais apêndices que ainda estão em reelaboração e, em seguida, uma coletânea desses artigos no formato de livro.

No conjunto dos estudos do doutoramento, salientei que não há sujeitos sem experiências e que não há igualmente sujeitos, além das experiências pessoais e profissionais, sem formação, sem educação. Assim, defendi e defendo a ideia de que a formação do sujeito é complexa e multirreferencial. Da mesma forma que Ardoino (2006), considero que a formação de si é um aspecto importante da educação e que se deve investir nela ao longo de toda a vida. Essa formação recebe diversas interferências, em diferentes situações existenciais, bem como do trabalho pessoal, da reflexão, do desenvolvimento de uma função crítica.  Mas não é somente em relação ao Eu enquanto sujeito.  É igualmente em relação ao Outro, tanto na perspectiva do Si com o Outro quanto interações com o Outro.  Esse Outro pode ser tanto imaginado em uma relação dual, ideal, imaginária; ou então ele já está inserido em um “nós” mais coletivo.  Nesse sentido, esse “Nós” é um meio de se formar, de aprender.

Nesse cenário de aprendizagens e defesas, emergiram as palavras e expressões formação de si, formação, experiência e educação como algumas das palavras-chave do estudo efetuado.  Foi nesse processo que as experiências de formação ao longo da minha vida, as pessoais e profissionais, foram tomando sentido e ressaltaram uma implicação total enquanto sujeito em constante auto-(trans)formação, alteração.  Foi no prosseguimento dessas experiências de vida, desse itinerário, que o objeto da pesquisa se desenvolveu e que possibilitou a continuação desse caminho. Assim, antes de continuar o detalhamento dessa trajetória, faço uma pausa para apresentar o poema Motivo, de Cecília Meireles, pois este sintetiza esta minha implicação.

MOTIVO

Eu canto porque o instante existe /

E a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.

 

Irmão das coisas fugidias,

Não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias no vento.

 

Se desmorono ou se edifico,

Se permaneço ou me desfaço,

não sei, não sei. Não sei se fico ou passo.

 

Sei que canto.  E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo: mais nada

(MEIRELES, 2000)

 

… e a trajetória continua …

 No Capítulo Young Gentlemen on Tour[3], do livro de Lynne Withey, é ressaltado o fato de que as viagens, na época do Grand Tour, eram consideradas como “um rito de passagem”, para suplementar, até mesmo complementar, “a educação formal de um jovem” com “experiências do mundo”, “um tipo de escola móvel conclusiva para os jovens”. Mas insiste igualmente que o Grand Tour era também uma possibilidade de evasão do controle familiar. Certamente, as questões relativas às experiências de aprendizagem, de formação e de educação pelas viagens – EAFEV[4] –, têm um papel considerável, até mesmo maior e essencial, na formação dos sujeitos, pois todas as experiências que as viagens tornam possível são complexas, multirreferenciais e ilimitadas.

Diversas razões me motivaram a desenvolver os objetos de estudo escolhidos ao longo da trajetória acadêmica: as experiências pessoais e profissionais nos campos das viagens, do turismo e da educação; o trabalho de campo e a pesquisa efetuada que resultaram na elaboração da Dissertação de Mestrado[5] e na publicação do livro Turismo, Educação e Acolhimento: um novo olhar[6]; a percepção cada vez maior sobre os significados e as contribuições das viagens à formação do sujeito, dentre outros.

Destaco, desse modo, que as viagens e o turismo são atividades com grande potencialidade formativa e educativa para o Brasil e o Mundo, além dos seus aspectos econômicos.  Portanto, é de importância fundamental que as Instituições públicas e privadas, a população, os profissionais dos serviços e os futuros profissionais compreendam tanto a importância dessas atividades bem como o que está em jogo, considerando os seus aspectos psicossociais, históricos, econômicos e culturais. Assim, poderão apoiar-se em conhecimentos amplos, sólidos e aprofundados nos campos das viagens e do turismo.

Ao longo dos anos de experiência profissional, como guia de turismo e como docente e, igualmente, como pesquisador nos campos da educação, das viagens, do turismo e do estudo do conceito de acolhimento, venho constatando e, a cada dia mais e mais, que há lacunas cognitivas e afetivas na educação geral e específica das pessoas que trabalham ou que vão trabalhar nas atividades desse campo no Brasil e em outros países, em níveis diferentes. Por isso, a partir de tais constatações, pude ir desenvolvendo o meu objeto de pesquisa, o qual, a cada nova viagem, seja geográfica, intelectual e/ou psicológica, foi sendo ampliado com base na inter-relação de saberes.

Durante a elaboração da dissertação de mestrado e do livro Turismo, Educação e Acolhimento: um novo olhar, identifiquei em um certo espaço turístico – a cidade de Ilhéus, no Estado da Bahia, Brasil – certos aspectos da construção do hostis[7] e as dificuldades que podem surgir na transformação necessária desse em hospes[8].  Verifiquei, também, que para a plena realização das viagens e da atividade do turismo, isto é, para oferecer ao sujeito-viajante a concretização da realização de suas expectativas, necessidades, sonhos e desejos em um curto espaço de tempo, é necessário que os profissionais das viagens e dos serviços turísticos tenham atitudes de acolhimento e comportamento adequados.  Entre os anos de 2014 e 2016, uma pesquisa semelhante foi efetuada na cidade de Salvador, a qual reafirmou os achados anteriores e confirmou a necessidade do desenvolvimento de uma postura turística voltada ao Acolhimento e ao desenvolvimento da Afetividade.

No estudo do doutoramento, passei a denominar esse comportamento de Comportamento Sustentável nas Viagens e no Turismo.  Considero, igualmente, que o conhecimento e o aprofundamento do conceito de acolhimento e de suas categorias fundamentais são necessários e primordiais na educação profissional nos campos em estudo. Isso porque considero o Acolhimento como um elemento capaz de unificar o significado e as contribuições das viagens aqueles do turismo. Nesse sentido, são as atitudes e comportamentos, nas instituições públicas e privadas, no nível macro e no micro, que vão exprimir a importância (ou não) que é dada às viagens e ao turismo como atividades econômicas importantes para o desenvolvimento humano, social e econômico sustentável das sociedades.

Foram, e continuam sendo, igualmente, minhas inquietudes pessoais e profissionais sobre o significado e as contribuições das viagens à formação do sujeito que me motivam em aprofundar estas reflexões e que me levaram, e continuam levando, a delimitar mais precisamente o objeto, os objetivos e a metodologia da pesquisa de doutoramento, que vem sendo utilizada por mim, por meus colegas e orientandos de graduação e pós-graduação stricto sensu.  Como exemplo dos desdobramentos desses estudos, cito as orientações de mestrado, as quais estão em andamento, de Bianca Silveira, com o tema “Educação, Cultura e Acolhimento: contribuições para a Educação em Turismo e Hotelaria no Distrito Federal” e a de Amneres Pereira, intitulada “Roteiros Turísticos na Capital Federal: Análise dos Roteiros existentes e proposta de um Roteiro Geopoético de Brasília”. Destaco, ainda, que estes estudos são possíveis a partir da ampliação de parcerias entre exercício profissional no IFBA e o curso de Mestrado Profissional em Turismo na UNB.

A partir das leituras, das experiências pessoais e profissionais, das reflexões e análises estabelecidas, considero que a atividade das viagens e do turismo deve (re)conciliar a realidade externa com as necessidades e desejos inerentes ao ser humano. Além disso, a educação nos campos das viagens e do turismo deve conduzir a conhecimentos, nos profissionais, que lhes permita compreender que devem estar disponíveis para o outro.  Esse “outro” está à procura da realização de um certo sonho, de um desejo que revela sua necessidade de atenção, sua procura por acolhimento e por uma estética[9] do bem-estar.

Assim sendo, a palavra formações representa, nesses estudos, as formações do sujeito humano, formais e informais, oferecidas nos seus diversos níveis e tipos.  Desse modo, as formações para as viagens e o Turismo devem permitir, ao sujeito que se torna um profissional, construir a representação segundo a qual o cliente deve ser considerado um hospes, que é desejado, acolhido, acompanhado, como é acolhida e acompanhada a realização de seu sonho e de seu desejo de bem-estar, no contato com outros espaços e outras pessoas (désirs d’ailleurs)[10]. Nessa perspectiva, educar para mudar, (trans)formar é o que parece claro, natural, para a consciência crítica atual.

Isto implica, no mínimo, investigar a viagem e o turismo como atividades humanas, sociais e econômicas, necessárias e primordiais; considerar o viajante e o turista como hospes; os proprietários e os colaboradores como parceiros, em colaboração para criar as condições propícias a uma viagem agradável.  Esse processo começa desde os primeiros sinais do acolhimento, continua durante o acompanhamento desenvolvido ao longo da estada e conclui-se quando é despertado o desejo de voltar a esse oásis que responde ao desejo do viajante de estar bem consigo mesmo, com o ambiente e, sobretudo, com esses “mágicos” (os profissionais das viagens, do turismo e do acolhimento). Isso porque, diante da satisfação dos turistas, estes profissionais parecem conhecer suas fantasias, suas expectativas de ver / ouvir / degustar / cheirar / tocar, deixando-lhes com a sensação de que estão seguros, como também de que são objeto de atenções e de cuidados múltiplos.  Nesse processo, algumas atenções são discretas, outras mais evidentes.

Assim, os profissionais devem desenvolver conhecimentos, competências e habilidades cognitivos e afetivos no que se refere: a sua formação em turismo; à lógica cultural, intercultural e econômica das viagens; aos aspectos psicológicos que derivam da dualidade estabelecida por Sigmund Freud entre o “Princípio de Realidade” e o “Princípio de Prazer”; ao desejo de conhecer, de descobrir outros países, culturas, pessoas, modos de vida, de experienciar sob climas e latitudes diferentes novas sensações, desenraizantes[11] (alteridade – alteração; motivações; estética do bem-estar; acolhimento; acompanhamento; espacialidade; temporalidade).  No entanto, essas dimensões não são levadas em conta nem na educação de nível técnico e superior em turismo e hospitalidade, nem na educação fundamental e média, nem na educação ao longo da vida (life long education), nem na educação dos responsáveis pela formação daqueles que vão acolher e compartilhar seus espaços e seus tempos com o sujeito-viajante.

Após esses percursos, na pesquisa para o pós-doutoramento, foi produzido o ensaio sob o título “Viajando… se transformando… Caminhos da transformação de si: do homo faber ao homo peregrinus academicus: difusão do conhecimento e viagens de estudos ao exterior”. Neste texto retomo alguns elementos que contribuem para aprofundar as reflexões, sobretudo aqueles que se referem à contribuição das viagens para o avanço das ciências e para a difusão do conhecimento proporcionado por elas. A minha intenção, ao escrevê-lo, foi ressaltar na mobilidade dos sujeitos, especialmente na mobilidade acadêmica, a descoberta de si e a descoberta do mundo, especificamente pela viagem de estudos ao exterior de estudantes brasileiros em formação de pós-graduação na França.

Para tanto, nesse ensaio, foram delineados alguns caminhos para a transformação de si.  Especificamente, apresentei reflexões e análises sobre as viagens de estudos ao exterior como canais privilegiados para a difusão do conhecimento. Ao longo dessas reflexões e análises, procurei apresentar a viagem, enquanto processo de formação, abordada como um fenômeno humano, histórico e multidimensional, considerando as dimensões humana, técnica, cognitiva, emocional, social, política e cultural.

A espiral do conhecimento desenvolvida foi apresentada com base em algumas etapas articuladas por meio da reflexão sobre: as viagens como caminhos de autotransformação e de difusão do conhecimento; as viagens enquanto possibilidades de educação e de experiência; a mobilidade humana, tendo por figura central o homo mobilis, e a utilidade das viagens; a mobilidade de sentido nos textos, ressaltando a viagem como metáfora; as viagens como caminhos para a alteridade; a trajetória do homo faber ao homo peregrinus academicus, destacando a mobilidade do conhecimento; os caminhos da transformação de si, a partir da difusão do conhecimento ressaltado nos relatos de viagens de estudos ao exterior e, igualmente, da difusão do conhecimento como resultado pretendido no programa Ciências Sem Fronteiras, do Governo Federal do Brasil.

Este texto salienta, reiteradamente, que a viagem tem uma potencialidade formativa, propicia o conhecimento de si e a autotransformação. Por ser complexa e multirreferencial, promove a difusão do conhecimento nos diversos campos do saber.  Além disso, na relação entre o Eu e o Outro, por meio das semelhanças e diferenças, surgem um Eu, um Outro e um Nós mais fortes. Nessa perspectiva, compreendemos que a metodologia da viagem, ao longo do tempo, contribuiu grandemente para o delineamento da metodologia científica, além de possibilitar a formação de si, a auto-co-hétero-eco-formação na escola da vida. Nesse contexto, a transformação de si acontece em um longo processo de formação, pois a viagem é um fenômeno humano, histórico e multidimensional.

Para balizar esse itinerário, a trajetória metodológica utilizou a perspectiva do Brico-Método (bricolagem metodológica), cuja base epistemológica multirreferencial se fundamenta em uma abordagem aberta à complexidade da realidade do meio e do sujeito, pois faz empréstimos de diversas escolas e teorias, reunindo-as para esclarecer um objeto de pesquisa por meio de múltiplas perspectivas.  Nesse contexto, a fim de analisar os depoimentos orais, foi utilizada a análise de conteúdo como técnica para este estudo.

Assim, ao longo das pesquisas empreendidas, emergiu a ideia de viagem como uma possibilidade de educação e de experiência.  A viagem é considerada como uma escola de vida e para tal é necessário um planejamento que englobe o conhecimento da língua estrangeira, do contexto sócio-histórico-cultural dos espaços a serem visitados e, sobretudo, dos usos e costumes dos povos a serem conhecidos. É na mobilidade dos sujeitos que emerge a utilidade das viagens. Ao longo do tempo, os autores salientam diversas experiências que apontam o papel das viagens na reunião e na difusão do conhecimento, no avanço das ciências e na sua difusão. O fio condutor é a mobilidade que, no estabelecimento da relação entre os sujeitos, em espaços diferentes do habitual, possibilitam a transformação e a descoberta de si e do mundo. Por este motivo, as viagens são úteis aos sujeitos e à sociedade contribuindo para a construção da cultura da viagem.

Assim, ao longo do tempo, as viagens têm apresentado uma finalidade pedagógica, pois propiciam o aprendizado por meio da “leitura do ‘grande livro do mundo’”. Nas viagens ocorre um exílio temporário e, por meio de um olhar mais apurado, o retorno ao local de origem se torna mais enriquecido. Desta forma, as viagens educativas permitem uma contribuição à formação e à profissionalização dos sujeitos, pois, por sua dimensão pedagógica, possibilitam a descoberta do mundo e a descoberta de si.  Nesse contexto, ocorre um aprendizado sobre o mundo, o saber-fazer, o outro e o eu e, especialmente, sobre o conhecimento em si mesmo.

Destacamos, de modo especial, que as viagens, além da mobilidade espacial, apresentam a possibilidade da mobilidade de sentido, pois o seu valor educacional se traduz pela percepção da diversidade, pelas novas lições, pelo benefício ao desenvolvimento do corpo e do espírito, pelas inovações, pela abertura de novos horizontes.  Dentre as motivações que a promovem, há o desejo pelo progresso, pela procura de conhecimento, pela liberdade e pela consciência de si. Assim, as viagens podem propiciar ganhos substanciais: riqueza; poder; experiências culturais que agregam maior valor social; e conhecimento.

Dessa forma, viajar propicia, com base nos caminhos escolhidos como roteiro, o encontro com o outro, em outros lugares. Assim, a viagem, por meio da experiência da diversidade e da diferença, propicia também o questionamento de si próprio.  Há, então, uma condução do sujeito ao mais profundo de si mesmo, ao encontro consigo mesmo. Nesse sentido, a viagem é considerada um espaço de reflexão em que ocorre um aprendizado para se preparar para viver as mudanças e mutações, pois a trajetória conduz o sujeito para além dos seus próprios limites, para a possibilidade da revelação de si por meio do contato com o mundo e com os outros, para uma aprendizagem com o inesperado, o inusitado.

Diante dessa perspectiva apresentada, a análise dos depoimentos orais dos sujeitos pesquisados confirmou os elementos acima apontados e que emergiram do corpus de textos escolhidos. Na construção desse cenário, ao chegar à conclusão de mais esta trajetória de investigação nos campos da formação, da educação, das viagens, do turismo e do conhecimento, confirmamos que, nos caminhos da transformação de si, as viagens de estudos ao exterior contribuem para a ampliação do conhecimento dos sujeitos, a sua difusão, a construção da percepção da identidade do homo peregrinus academicus e, sobretudo, para a transformação do Ser.

Por sua vez, no período de 2012 a 2014, por meio de Edital da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação – PRPGI/IFBA, desenvolvemos o projeto de pesquisa sob o título “Educação em Turismo: uma Pedagogia das Viagens, do Turismo e do Acolhimento”. Esta investigação abordou a qualificação profissional, de uma maneira geral, e a qualificação para as viagens, o turismo, a cultura e o lazer, em particular, pois esses são desafios a serem superados para o desenvolvimento da atividade turística no Brasil e no Mundo.  A Organização Mundial para o Turismo – OMT, o Ministério do Turismo – MTur, as secretarias estaduais e municipais também ressaltam e apontam essa necessidade.  Os estudiosos da área destacam a relevância das viagens na transformação do sujeito, evidenciando diversos aspectos do seu significado e contribuições no âmbito da Cultura, da Antropologia, da Filosofia, da História, da Literatura e da Mitologia. Existe a necessidade de uma modificação da formação dos sujeitos que possibilite o seu autoconhecimento e a construção de um comportamento sustentável.

O objetivo geral desta investigação foi a elaboração e a apresentação da Pedagogia da Viagem, do Turismo e do Acolhimento. Na operacionalização desta pesquisa,elaboramos, sistematizamos e apresentamos os seguintes indicadores: os pressupostos filosóficos e epistemológicos; os princípios didáticos e pedagógicos; as implicações administrativas; os itinerários formativos nos diversos níveis de formação; a estrutura teórica, técnica e metodológica. Para tanto, esta investigação se delineou como um estudo com uma abordagem multirreferencial, tendo como diretriz a perspectiva da “bricolagem metodológica”, o “brico-método”, pois esta pesquisa constrói conhecimentos nos campos da educação, das viagens e do turismo.

O principal resultado foi a comunicação da pesquisa no Seminário Anual da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo – ANPTUR e está prevista a publicação de um livro, além da publicação de artigos científicos e da apresentação de palestras, seminários. Igualmente, resultou em subsídios para a elaboração de cursos sobre a temática estudada. Ao longo do desenvolvimento desta investigação, foi explanado que as viagens e o turismo apresentam grande potencialidade formativa e educativa no Brasil e no mundo. Contudo, sua importância ainda precisa ser melhor compreendida. Para tanto, se faz necessário considerar tanto seus aspectos psicossociais, históricos, econômicos e culturais quanto à produção de conhecimentos que subsidiem um comportamento de acolhida adequado.

Nesse contexto, sustento a ideia de que a Educação em Turismo (explanada na minha tese – A Educação e a Formação para as Viagens, o Turismo e o Acolhimento) é uma alternativa para a transformação do processo de acolhimento em espaços de turismo, viagem, cultura e lazer. Assim, destaco que o acolhimento é o elemento capaz de unificar os significados da viagem e do turismo.  No entanto, mesmo com o incremento verificado no crescimento da atividade turística, há desafios a serem superados para o desenvolvimento dessa atividade no País.  Um desses é a qualificação profissional de uma maneira geral e a qualificação para o turismo em particular, como já apontado em pesquisas anteriores (AVENA, 2008, 2006, 2002).

No intuito de que o profissional do turismo contribua para a satisfação e a superação das expectativas e para o encantamento do turista, os profissionais dessa área necessitam estudar uma gama variada de conhecimentos. Dentre eles, a formação de si, é um processo complexo e multirreferencial.  Na origem desta expressão levou-se em consideração tanto a questão da forma, quanto o verbo formar, a palavra formação e o outro com quem se estabelecem os contatos de uma forma geral e, especialmente, durante uma viagem.

Ao longo dos estudos, evidenciamos, em consonância com Fernandes (2002, 1999), que a viagem é uma escola de vida e uma possibilidade de auto-co-hétero-eco-formação.  Além disso, em uma perspectiva de Educação em Turismo, que considere o sujeito como um todo complexo e multirreferencial, e que demanda tanto um conhecimento geral, bem como seu autoconhecimento, observamos a importância de se desenvolver uma educação transpessoal e transdisciplinar (AVENA, 2008; BERGER, 2002).

Na própria formação dos profissionais das viagens, do turismo e do acolhimento, esses sujeitos poderiam desenvolver a consciência de que têm um papel pedagógico e que têm uma atitude pedagógica na relação estabelecida com o viajante e o turista. Assim, esse profissional é um agente pedagógico e os equipamentos e serviços turísticos podem se constituir como espaços de aprendizagem, de formação e de educação para a difusão do conhecimento cultural, científico e tecnológico (AVENA, 2008). Do mesmo modo, é também um espaço que possibilita a compreensão das inter-relações entre a Educação, o Turismo e o Acolhimento.

Esse estudo dá continuidade a pesquisas anteriores e apresentou o delineamento de uma Pedagogia da Viagem, do Turismo e do Acolhimento na perspectiva de uma Educação em Turismo a partir de uma concepção transversal e transpessoal, com uma abordagem multirreferencial. A partir dessas reflexões, outras seguem. Especialmente aquelas que conduzem aos elementos que compõem a trajetória pela pedagogia, dos seus primórdios até as propostas mais contemporâneas, e que preconizam uma nova forma de se pensar essa área nas diferentes formações possíveis.

No percurso biográfico ora apresentado, em cujos caminhos se entrelaçam culturas diversas, aprendizagens de línguas, educação, afetividades, exercício profissional e turismo, acredito que tenha ficado evidente o quanto, para mim, tais entrelaçamentos se constituem com base no Acolhimento. Seja na educação, no turismo ou nas relações familiares, as calhas da vida giram em torno de um processo de acolhimento e/ou recusa, sendo nós os sujeitos-viajantes-autores entre as opções que escolhemos em nosso viver. Desse modo, após ser por tantas vezes acolhido e por viver o exercício cotidiano de acolher, tentando encaminhar na academia as aproximações entre educação, turismo e acolhimento, penso que não poderia concluir essa “Piccola Itália” sem falar um pouco sobre esse pequeno pedaço que me (con)forma e (trans)forma: – o Acolhimento.

No período de 2014 a 2016, por meio do Edital n. 03-2014/PRPGI/IFBA, foi desenvolvido o Projeto de Pesquisa sob o título “O Acolhimento nos equipamentos e serviços turísticos de Salvador: estudo da influência do contexto sócio-histórico-cultural, das representações sociais, da educação e do sistema de turismo (2014-2015)”, com a participação de quatro bolsistas de iniciação científica e uma docente. Nesse estudo, consideramos que a atividade econômica do Turismo na sociedade pós-industrial tem características peculiares do seu tempo.  O homem “cibernético” do terceiro milênio tem tido, crescentemente, tempo livre e assim necessidade cada vez maior de aproveitar este tempo livre longe dos seus afazeres cotidianos que, na maioria das vezes, não lhe dão satisfação, prazer, alegria. Neste tempo livre, ele estará à procura de divertimento, de descontração e do desenvolvimento do seu bem-estar.  O lazer e o turismo têm um papel profundamente importante no preenchimento desta lacuna afetivo-cognitiva que não se completa no seu dia-a-dia.  Desta forma, o homem, mediante a necessidade que tem de usufruir do seu tempo livre, procura por meio do turismo um local para desfrutar momentos prazerosos, que lhe proporcionarão a realização de seus desejos e expectativas.

Esse local é, inicialmente, desconhecido/estranho/hostil para o homem e ele, por sua vez, é também desconhecido/estranho/hostil a este local.  Será por intermédio do acolhimento que um “milagre” acontecerá.  O acolhimento permitirá aceitar o estranho, o inimigo, o hostis, de “não mais combatê-lo e de dar-lhe acesso a uma comunidade à qual ele não pertence” (GOUIRAND, 1994). Esta comunidade pode ser tanto a população de uma cidade quanto a clientela de uma loja ou de um restaurante. O acolhimento o transformará de hostis em hospes, isto é, o estranho, o inimigo, o hostil passará a ser reconhecido, receberá hospitalidade e cuidado, tornando-se assim hospes, hóspede.  É este processo de transformação que cremos ser possível acontecer pela via da Educação, o que procuramos apresentar ao longo dos estudos desenvolvidos em nosso percurso acadêmico e profissional.

Ressaltamos que o projeto “O Acolhimento nos equipamentos e serviços turísticos de Salvador” teve o objetivo de identificar em um certo espaço de turismo as razões intrínsecas aos aspectos da construção do hostis e as dificuldades em fazer acontecer sua transformação necessária para hospes. Especificamente, conforme indica o título, este trabalho trata da atividade turística na cidade de Salvador, um dos municípios da Zona Turística da Baía de Todos os Santos do Estado da Bahia. Defendemos, nesse estudo, que, para a plena realização da atividade do turismo, ou seja, para oferecer ao sujeito turista a concretização do atendimento às necessidades e desejos que ele procura obter num pequeno espaço de tempo, necessário se faz terem por parte dos sujeitos dos serviços turísticos atitudes mentais expressas em comportamentos adequados.

São esses comportamentos, nas instituições públicas e privadas, tanto no nível macro quanto micro, desenvolvidos por todos os sujeitos envolvidos no métier, que expressarão a importância que se dá ao turista e ao turismo como atividade econômica relevante para o desenvolvimento humano e econômico das sociedades.  Não apenas nesse projeto, mas também com base em vivências pessoais e profissionais ao longo das três últimas décadas, verificamos lacunas afetivo-cognitivas num tema particular que deveria ser de conhecimento e prática de todo profissional que esteja envolvido com a realização de atividades no largo espectro daquelas relacionadas com a efetiva realização das necessidades e desejos dos turistas – o Acolhimento.

No período de 2014 a 2016, por meio do Edital n. 03/2014/PRPGI/IFBA, foi desenvolvido igualmente o Projeto de Pesquisa sob o título “O Turismo e as Viagens como canais privilegiados para a difusão do conhecimento – análise das experiências de viagem dos discentes e docentes do IFBA participantes do Programa Ciências sem Fronteiras da CAPES/CNPq (2010-2014)”, com a participação de quatro bolsistas de iniciação científica e uma docente. Conforme dito anteriormente, ao longo de minha trajetória, venho trilhando caminhos de autotransformação. Nesses caminhos, verifiquei a existência de lacunas cognitivas e afetivas na educação geral e específica das pessoas que trabalham ou que vão trabalhar nas atividades desses campos no Brasil e em outros países, em níveis diferentes.

Nesse contexto, durante a elaboração do trabalho de pesquisa do mestrado em educação, além de outros aspectos já mencionados, ressaltei, também, que para a plena realização das viagens e da atividade do turismo, isto é, para oferecer ao sujeito-viajante a concretização da realização de suas expectativas, necessidades, sonhos e desejos em um curto espaço de tempo, é necessário que os profissionais das viagens e dos serviços turísticos tenham atitudes de acolhimento e comportamento adequados. Em seguida, no desenvolvimento da tese de doutorado, passei a denominá-los de comportamento sustentável nas viagens e no turismo e considerei, igualmente, que o conhecimento e o aprofundamento do conceito de acolhimento, e de suas categorias fundamentais, são necessários e primordiais na educação profissional nesses campos, pois são os elementos capazes de unificar o significado e as contribuições das viagens aqueles do turismo.

As minhas inquietudes pessoais e profissionais de pesquisador sobre o significado e as contribuições das viagens à formação do sujeito me motivaram no aprofundamento destas reflexões e no delineamento da tese “Por uma Pedagogia da Viagem, do Turismo e do Acolhimento: significados e contribuições das viagens à (trans)formação de si”[12]. Assim, após esses percursos, no ensaio de pós-doutoramento, foram retomados alguns elementos que contribuem para aprofundar essa reflexão, sobretudo aqueles que se referem à contribuição das viagens para o avanço das ciências e para a difusão do conhecimento proporcionado por elas.

A minha intenção foi ressaltar, a partir da concepção de mobilidade dos sujeitos, especialmente na mobilidade acadêmica, a descoberta de si e a descoberta do mundo, especificamente pela viagem de estudos ao exterior de discentes e docentes do IFBA – Campus Salvador, em formação no exterior. Na operacionalização desta investigação, que ressalta alguns dos caminhos da transformação de si, a abordagem metodológica escolhida foi a perspectiva do Brico-Método, ou bricolagem metodológica, com uma base epistemológica multirreferencial.  Esta abordagem está aberta à complexidade da realidade do contexto sócio-histórico-cultural e do sujeito bio-psico-sócio-histórico-cultural[13].

A espiral do conhecimento, nesse sentido, foi apresentada por meio de algumas etapas articuladas com base na reflexão sobre as viagens compreendidas enquanto: caminhos de autotransformação e de difusão do conhecimento; caminhos para a alteridade; possibilidades de educação e de experiência. Igualmente, buscamos observar a mobilidade humana, tendo por figura central o homo mobilis, e a utilidade das viagens; a mobilidade de sentido nos textos, ressaltando a viagem como metáfora; a trajetória do homo faber ao homo peregrinus academicus, destacando a mobilidade do conhecimento; os caminhos da transformação de si, por meio da difusão do conhecimento ressaltado nos relatos de viagens de estudos ao exterior; a difusão do conhecimento como resultado pretendido no programa Ciências Sem Fronteiras, do Governo Federal do Brasil.

Como uma das ações ocorridas após as pesquisas realizadas, em 06 de maio de 2015, na 48ª reunião do colegiado do curso de mestrado profissional em turismo, do Centro de Excelência em Turismo (CET), da Universidade de Brasília – UnB, foi aprovada, por unanimidade, a criação da disciplina Acolhimento Turístico e Hoteleiro: Condicionantes e Categorias, cuja apresentação foi conduzida por mim. Em reunião sucessiva, foi aprovado o meu credenciamento no programa MPT.  Esta disciplina é resultado do desenvolvimento e desdobramento das pesquisas a partir da dissertação de mestrado e posterior publicação de artigos e do livro Turismo, Educação e Acolhimento: um novo olhar. A justificativa para a sua criação é que se tem verificado, ao longo do tempo e da experiência profissional, que o acolhimento turístico e hoteleiro é ainda pouco estudado e aprofundado nas reflexões sobre a atividade econômica do turismo no Brasil.

No primeiro semestre de 2016 foi criada uma nova disciplina sob o título Educação, Formação e Qualificação em Turismo, Hospitalidade e Lazer. Nesse contexto, o objetivo da disciplina proposta foi introduzir e aprofundar as reflexões sobre a educação, a formação e a qualificação em turismo, hospitalidade e lazer tendo como diretriz a compreensão do conceito e das categorias do acolhimento. Para tanto, como sustentação, propomos a reflexão por meio de uma abordagem multirreferencial na perspectiva da “bricolagem metodológica”, o “brico-método”.  Esses foram os elementos específicos que justificaram a criação da disciplina.

Da mesma forma que a anterior, esta disciplina está em sintonia com a área de concentração “Cultura e Desenvolvimento Regional” do Mestrado Profissional em Turismo e em especial com a linha de pesquisa “Cultura e Sustentabilidade no Turismo”.  Desta forma, ambas têm como objetivo colaborar no processo de “proporcionar aos pós-graduandos uma formação sistêmica que” lhes “permita pesquisar, refletir e agir sobre o conjunto de questões peculiares às relações complexas e interdisciplinares do Turismo”[14].

Além das duas disciplinas apresentadas, foi proposto o Projeto de Pesquisa sob o título “O Acolhimento nos equipamentos e serviços turísticos da cidade de Brasília: estudo da influência do contexto sócio-histórico-cultural, das representações sociais, da educação e do sistema de turismo (2015-2017)”, no qual se integram os projetos de dissertação dos mestrandos sob orientação do pesquisador. Este projeto é uma adequação do Projeto de Pesquisa apresentado ao IFBA com o ajuste para desenvolver um olhar mais preciso sobre a cidade de Brasília e região. Como há mestrandos que provêm de diversas regiões, as discussões têm sido ampliadas e tem sido constatado a cada novo grupo o espelhamento da realidade encontrada na Costa do Cacau, Região Sul da Bahia, o que já era apontado então.

Ao ver a similaridade nas informações encontradas tanto na Costa do Cacau quanto em Salvador e, agora, também em Brasília, retomo “la Piccola Italia” de que sou feito e observo o quanto os caminhos do viver se entrecruzam. E é nesse cenário que as atividades de ensino, pesquisa, extensão, gestão e internacionalização vêm sendo desenvolvidas ao longo dessa trajetória.  Na segunda parte deste Memorial Descritivo, serão apresentados cada uma dessas atividades e nos Anexos, estão inseridos os documentos comprobatórios das mesmas.

Assim, das minhas experiências profissionais acadêmicas e, em especial, da minha atuação no IFBA, quantos pequenos pedaços se uniram, nem sempre de forma homogênea, para formar aquilo que hoje sou. Das conquistas às decepções, dos risos às lágrimas, das alegrias das aprovações ao lamento das reprovações, dos ensinamentos de que nem sempre a vida diz sim, das diásporas geográficas e emocionais, das paisagens que nos compõem – o quanto somos formados por um complexo mosaico emocional, cultural, social e profissional. Por fim, nesse traçado autobiográfico, só tenho a agradecer a todos e a todas que me auxiliaram a, em meio às viagens, promover a grande viagem em mim mesmo e a cada dia renascer para a Educação, o Turismo, o Acolhimento e o Exercício de sermos em meio a contextos, por vezes, tão desunamos. Gratidão!

 

  1. ATIVIDADES DE ENSINO, PESQUISA, EXTENSÃO E GESTÃO

Foram diversas e muito significativas as atividades desenvolvidas ao longo desses vinte anos de exercício profissional e acadêmico no Instituto Federal da Bahia, tanto as que ocorreram no próprio campus Salvador quanto as que pude realizar em outros campi e instituições com base nas parcerias criadas e estabelecidas. Nesse sentido, destaco a parceria com o Centro de Excelência em Turismo (CET), da Universidade de Brasília – UnB, a qual resultou na apresentação de duas disciplinas: Acolhimento Turístico e Hoteleiro: Condicionantes e Categorias, em maio de 2015; e Educação, Formação e Qualificação em Turismo, Hospitalidade e Lazer, no primeiro semestre de 2016. Enquanto possíveis justificativas para tais disciplinas, o que se tem percebido é que a qualificação profissional de uma maneira geral e a qualificação para as viagens, o turismo, a cultura e o lazer, em particular, são desafios a serem superados para o desenvolvimento da atividade turística no Brasil e no Mundo.

Do mesmo modo, em conformidade às nossas pesquisas, os estudiosos da área destacam a relevância das viagens na transformação do sujeito, evidenciando diversos aspectos do seu significado e contribuições no âmbito da Cultura, da Antropologia, da Filosofia, da História, da Literatura e da Mitologia. Assim, verificamos que existe a necessidade de uma modificação da formação dos sujeitos que possibilite o seu autoconhecimento e a construção de um comportamento sustentável.

Concluindo esta etapa em consonância a essas perspectivas, destaco que no período de 2014 a 2015, participei na edição do número especial da revista científica Téoros – Revista de Pesquisa em Turismo, publicada pela Universidade do Québec em Montréal, sobre o Turismo na América Latina, com a colaboração das Professoras Doutoras Mirian Rejowski (USP/UAM) e da Professora Doutora Pascale Marcotte (UQTR).  Além da coordenação da edição especial, foi efetuada uma entrevista com o Professor Doutor Mario Carlos Beni e foi elaborado um artigo introdutório para essa edição sob o título “Contrastes e Diversidade Turística na América Latina”.

No período de 2016 a 2017, participei como Editor-Chefe da Revista Científica Cenário – CET/UnB. E, por sua vez, também em 2017, iniciei as atividades no Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional e Tecnológica – PROFEPT, uma proposta em rede, da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, que reúne dezoito Institutos Federais, no intuito de qualificar os profissionais das diversas áreas da Educação Profissional e Técnica. Nesse sentido, frente aos novos desafios que estão sendo colocados pelas experiências acadêmico-profissionais atuais, vislumbro também novas perspectivas de atuação e expansão das áreas que constituem meu objeto de pesquisa, tendo em vista as inter-relações de saberes entre a Educação, o Turismo e o Acolhimento.

 

III. PERSPECTIVAS FUTURAS

Com base nas pesquisas desenvolvidas tendo como diretrizes as inter-relações entre a Educação, o Turismo e o Acolhimento, apresentamos os itinerários formativos no campo das viagens, do turismo e do acolhimento. Assim, em consonância com os elementos discutidos ao longo desse memorial, eles poderão colaborar para a reflexão dos docentes, pedagogos e pesquisadores nas concepções de novos cursos, projetos pedagógicos e propostas inovadoras no campo das viagens, do turismo e do acolhimento.

Muitas outras possibilidades e perspectivas de estudo e pesquisa são possíveis e desejamos que os atuais e os futuros pesquisadores nesses campos possam dar continuidade às reflexões aqui apresentadas. Destacamos, nesse sentido, que a experiência pessoal e profissional relatada se inclui no amplo contexto das obras e autores estudados no decorrer das minhas formações acadêmicas e nos elementos que emergiram nos depoimentos orais dos sujeitos pesquisados.  Mediante esses estudos e os resultados até aqui obtidos, outras perspectivas estão sendo germinadas:

  • A organização do material produzido, publicado e ainda não publicado, até o momento;
  • O planejamento da sua difusão por meio de comunicações em eventos, publicações de artigos, capítulos e livros, palestras, seminários, cursos e minicursos. Nesse sentido, foi apresentada uma comunicação deste trabalho na Conferência Turismo, Itinerário e Rotas Culturais: Significados, Memória e Desenvolvimento, promovido pela Universidade de Laval, na cidade de Quebec, Canadá, de 13 a 15 de junho de 2012.  Além disso, foi publicado o primeiro volume da tese de doutoramento, em 2015, por meio de um financiamento coletivo.  Outros três livros serão elaborados a partir dos demais volumes da mesma tese;
  • O desenvolvimento de disciplinas que incluam as reflexões até aqui elaboradas, organizadas e publicadas, tanto nos cursos profissionalizantes (Introdução ao Turismo) quanto nos cursos superiores e de pós-graduação (UnB – CET – Mestrado em Turismo);
  • A elaboração de outros projetos de pesquisa com universidades brasileiras e estrangeiras.

Dessa forma, entendemos que, em meio ao que parece ser o final de um ciclo, em realidade, surgem novos pontos de partida que dão continuidade aos caminhos da transformação de si, à ampliação do conhecimento de si e à difusão do conhecimento profissional e pessoal. Tal continuidade se dá em razão de constatarmos que há, ainda, a necessidade do desenvolvimento de um olhar mais criterioso e crítico para que o turista/viajante seja compreendido como um verdadeiro hóspede (hospes) e que a representação social de um ser hostil (hostis) presente na sociedade brasileira, mesmo que de forma sutil e velada, seja identificada, compreendida e transformada.  Neste sentido, a reflexão sobre as condicionantes que influenciam na qualidade do acolhimento é de fundamental importância, pois o contexto sócio-histórico-cultural nacional e, especificamente, o regional local contribuem sobremaneira para esse processo.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A título de considerações finais, gostaria de registrar o meu profundo agradecimento aos que leram as narrações da minha trajetória acadêmico-administrativo-profissional. Reconheço que o processo de formação vai além dos cursos concluídos ou dos estudos realizados ao longo da trajetória de formação. Sei que o processo continua, pois é de condução no contínuo do tempo e, aqui e ali, é permeado pelo que se tem considerado como produção.

Por tudo, reafirmo o meu empenho na construção de propostas produtivas de incursão no sentido da potencial vontade de contribuir para a melhoria da formação sócio-profissional dos sujeitos. Incluo-me em tal processo. Continuo a aprender e a conviver com o diferente.

Faria, novamente, o que tenho feito e, claro, estabelecendo novos parâmetros para o que suponho ser mais adequado aos propósitos da instituição do bem e de ponderação para o que o conhecimento possa servir. Assim, acredito que, na esperança de que a leitura deste texto tenha provocado muitas reflexões e questionamentos, certamente novos encontros ocorrerão nesses itinerários.

A todos, os meus agradecimentos.

Eis o meu memorial.

Março, 2017

Salvador, Bahia

 

 

[1]    Pequena Itália. (NT)

[2]    Massa, geralmente spaghetti, com molho de tomate. (NT)

[3]    Jovens em viagem. (NT)

[4]    A expressão “experiências de aprendizagem, de formação e de educação pelas viagens” é sistematicamente apresentada.  Por este motivo, foi criado o acrônimo EAFEV que será utilizado ao longo do texto.

[5]   AVENA, Biagio M. Turismo, educação e acolhimento de qualidade: transformação de hostis a hospes em Ilhéus, Bahia. 2002a. 367 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal da Bahia – UFBA I Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, Ilhéus.

[6]    AVENA, Biagio M. Turismo, Educação e Acolhimento: um novo olhar.  São Paulo: Roca, 2006.

[7]    A palavra latina “hostis” é utilizada no sentido de “hostil”.

[8]    A palavra latina “hospes” é utilizada no sentido de “hóspede”.

[9]    A palavra estética na expressão “estética do bem-estar” é utilizada com o sentido do belo, do prazeroso, de tudo aquilo que sensibiliza os sentidos do sujeito.

[10]   Desejos do Outro (outros lugares, outras pessoas) – (NT).

[11]   Dépaysant – fazer mudar de país, de lugar, de meio (desenraizar, exilar); estar confuso, incomodado pela mudança de contexto, de meio, de hábitos (desorientar, perturbar, embaraçar) – (NT).  In: Dicionário Babylon.

[12] AVENA, Biagio M. Por uma Pedagogia da Viagem, do Turismo e do Acolhimento: significados e contribuições das viagens à (trans)formação de si. 2008. 516 p. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal da Bahia, Salvador.

[13] AVENA, ibidem.

[14] Informações extraídas do site do Mestrado Profissional em Turismo, disponível em: <<http://cetmestrado.unb.br >>. Acesso em 01 mar 2017.